sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A crônica dos preservativos


As vezes a entrega é mútua, mas não vem na mesma medida. E quem dá mais, por fim, acaba sofrendo em dobro. 





O celular vibrou em cima da mesa. Eu deixo os bifes fritando e vou, esperançosa, olhar que a mensagem não era dele. Hoje é domingo, quase 2 meses desde que nos conhecemos. No meu criado mudo ainda resta uma camisinha, já do nosso segundo pacote (não quero acreditar nisso, mas acho que deixei pra ele ver que só usei com ele). Uma amiga disse uma vez que a relação começa a ficar séria a partir do terceiro pacote de camisinhas. Estou levando isso pra vida.


Nos conhecemos numa sexta, numa bar/balada/casa de shows. Transamos no primeiro encontro, porque eu acredito que vale mesmo muito a pena transar com alguém que não se conhece, afinal, antes uma pessoa insuportável que faça um sexo delicioso, do que um perfeito alguém que você aguarde 2 meses pra transar mas que não te satisfaça.

 Praticidade.

Trocamos telefone, e foi perfeito, ah foi perfeito. Mas eu não falo como apaixonada. Tenho 30 anos, trabalho, tenho carro, sou dona de mim, não sou boba. E fui levando. Na segunda ele me visitou a noite, sóbrios, conversamos um pouco e fizemos sexo novamente. Então, sem o poder sedativo do álcool a coisa foi real (não que a primeira não tenha sido, aliás, acho que gemi mais) e aproveitamos, até o horário que ele teria que ir embora. Sem problemas. Ainda tava tudo bem.

Ainda. 

Mandei um bom dia no outro, ele respondeu, trocamos emojis, frases sobre a cidade e eventuais assuntos bobos que me ocorriam.  Eu já estava embrulhada no lençol macio da carência quando ele veio em casa pela terceira vez. Mais conversa, mais beijo. Ah, o problema do beijo. Existe um limite humano de resistência quando o assunto é beijo. Pra mim, só reconheço duas situações, uma delas é quando você não gosta do beijo da pessoa. Na outra, é quando você gosta, e daí abrem ramificações intermináveis de laços de lembranças e toques que o beijo trás. E foi assim que aconteceu, já que, eu não lembrava mais da forma que ele fazia sexo, mas sim, da forma como ele beijava. Boba eu.
Na terceira vez comemos pizza, e depois fizemos nosso ritual comum: cama, parede, chuveiro, cama de novo, despedida.

Daí já acabaram as camisinhas do primeiro pacote. Fase 1. Se minha amiga estivesse certa (e considerando a margem de erro) eu logo estaria envolvida demais. Mas e daí?
Existe uma cultura hoje, de “se segure” “não se entregue” “não dê o braço a torcer”, mas eu ainda acho que a gente tem pouco tempo de vida, e precisa arriscar. Se eu não falar pra alguém como me sinto, qual a realidade da coisa?


Ele voltou mais uma vez, pra abrir mais um pacote de preservativos enquanto me olhava pelada na cama. Eu já havia mandado mensagens mais pessoais. A gente já havia criado uma amizade sexual adulta suficientemente interessante pra mim. Mas aí as coisas   mudaram.

Eu percebi que sempre iniciava as conversas. Mandava um bom dia, ou puxava um assunto despretensioso qualquer. Ele vinha com a resposta, quando vinha. Resolvi testar, e deixei de falar alguma coisa durante um dia. No outro ele me chamou, mas eu já havia consumido metade do meu estômago numa gastrite nervosa.
Eu caí num abismo psicológico quando percebi que já estava me culpando quando ele não respondia, eu achava que fiz algo de errado, do mesma forma, quando ele me mandava mensagens, a impressão era de que eu havia feito a coisa certa, ele estava comigo. Eu já não era eu. Já estava na dependência das vibrações e apitos do celular, em qualquer horário.
Ele voltou, e fizemos amor loucamente. Nos falamos mais um pouco e no fim de tudo, restou um preservativo do segundo pacote , abandonado no fundo da minha gaveta. O limite entre o sexo casual e o relacionamento (de acordo com a amiga).
As pessoas falam de paixão, que ela arde, queima, dói de prazer e de arrependimento, mas os livros, os filmes e as músicas esquecem da pré-paixão: aquele momento em que você está com lama nos pés, decidindo se mergulha de vez ou não no monte de areia movediça a sua frente, ou se dá um passo pra trás e se lava calmamente , se livrando do desespero de seguir em frente sem saber o que a outra pessoa pensa.

E cá eu fiquei, no limbo do relacionamento, no purgatório de qualquer coisa que isso era ou estava se tornando. Depois de 15 dias sem uma resposta que não fosse monossilábica e negativas com desculpas esfarrapadas pra não vir em casa, estou eu aqui, fritando bife e lendo essa mensagem aleatória de uma amiga. 

O número dele não está na minha agenda mais, porque, depois da realidade da auto piedade, veio a autoflagelação e eu achei que devia me ensinar uma lição: que não se conte os relacionamentos em camisinhas. Quanto a transar no primeiro encontro, ainda vou seguindo como era, acho a ideia ótima e não tem porque ir contra ela agora. Eu só preciso tomar cuidado com os beijos, a porra dos beijos. Tem uma frase comum que deixei passar enquanto prestava atenção no que as amigas falavam: o peixe morre pela boca. Minha sorte, é que não mordi muito forte. 

A vida segue.

12 dias depois

O celular tocou enquanto eu dirigia. Puxei as notificações pra ver o que era, e o dito cujo me mandou um “oi”. 

Vou responder só amanhã.

 Sou mais eu.





quarta-feira, 21 de maio de 2014

Frio e Calor




“Quem nasce no sul não sente frio” As palavras chegavam abafadas dentro de seus ouvidos cobertos por duas toucas de lã. 


Enquanto a mãe continuava a reclamar do seu frio desmedido, os irmãos corriam e brincavam na grama queimada da geada da madrugada. Eles não usavam luva e nem se importavam em andar descalçados pisando em poças gélidas, enquanto ela mal podia mover os dedos das mãos por conta das luvas grossas. Ela nunca gostou do frio. Sonhava com os desertos com oásis em que sua pele ia sentir o sol lamber com vontade e saciar todo seu amor pelo calor. Ao invés disso, nasceu no estado mais gelado do seu país cercada de gente que não tinha sensores ao frio, o que a deixava ao mesmo tempo irritada e com inveja. E como sonho é sonho, e o sonho é mais querido ainda quando se tem um motivo particular pra isso, ela se mudou de casa assim que pode.
Queria estar ali, no nordeste do seu país, do lado da linha do equador, onde as chuvas caiam em gotas grossas e quentes, onde poderia exibir as pernas brancas e ter enfim a sensação de sentir o seu corpo suar. Não era uma pessoa de gelo. Era uma moça que gostava do ar quase parado, da areia branca e seca das praias, da vida morena que o sol trazia pra quem sabia receber seu calor. Nunca mais usou agasalhos e nunca mais teve os dedos das mãos de cor púrpura e doloridos pelo castigo do frio.
Conheceu um rapaz certa tarde sentado nas cadeiras de um quiosque qualquer. Conversaram, beberam e conversaram novamente. E quando ela achou que já não tinha mais assunto a tratar, mais conversa fluiu e fluiu mais ainda. E eles se encontravam nas praias dessa vida, dia após dia, noite após noite. Até que um dia ele marcou um encontro em um shopping qualquer.
Ela chegou na hora e no lugar que ele pediu, eles deram as mãos e começaram a caminhar. O calor, ah o calor dentro do seu peito, num afago que era nada além do que a melhor coisa pra ela. Ele caminhou a sua frente e disse que as coisas andavam ótimas, que nada era como antes e que tinha um pedido a fazer. Puxou ela pelo braço para dentro do elevador, e lá embaixo, no primeiro andar, quando a porta se abriu ela viu seu mundo caindo: Embaixo de uma faixa de “Casa comigo?”  a pista de patinação no gelo estava cercada de funcionários batendo palmas e rodeados pela névoa fria que subia do gelo artificial. Ela ficou muda. Ele a puxou para a pista e um rapaz lhe ofereceu os patins.
Gelo. Raiva. Frio. Amor. Como pode tanta coisa rodar a sua mente em tão pouco tempo né?
E ela ficou em pé, olhando a faixa, olhando os olhos dele cheios de amor, olhando o rapaz lá na pista segurando uma caixinha preta que devia ser uma aliança. Lembrando de suas dores, sua mãe, seus irmãos do gelo...
...
Hoje ela sorriu com a memória daquele dia fatídico. Olhou pra ele e deu um beijo carinhoso na sua bochecha quente. Escutou a lareira crepitando a madeira fria, e se enrolou no cobertor. A lua de mel em Campos do Jordão estava ótima. Eles iam acordar cedo e subir o morro juntos no outro dia. Tudo indicava que ia nevar. E ela não perderia a neve do lado dele, por nada desse mundo.



sábado, 12 de abril de 2014

O enterro

É incrível, que na vida, a nossa maior surpresa, não é surpresa nenhuma : a morte



O cortejo andava vagarosamente pela avenida principal. No trajeto de cinco quarteirões, crianças, jovens e velhos caminhavam cabisbaixos trocando palavras de consolo entre si no caminho ao cemitério.
Jazia dentro do caixão, a matriarca da família, magra e de estrutura frágil , já nem sequer lembrava a mulher que colheu café, algodão e que conseguiu criar quatro  filhos, superando a morte de dois maridos.
 Cercada de filhos, netos e bisnetos, ela agora estava coberta com um fino tule bege e rodeada de pequenas margaridas que iam até os limites do caixão e espalhavam pelo ar um doce aroma de flores, que lembrava vida. Um triste contraste com a imagem da senhora morta, com a pele fina e toda marcada de rugas que estava magra e com os ossos marcando os cantos do corpo. A imagem de um corpo que já estava sem vida desde muito antes de morrer.

Os seis carregadores, três dos quais eram os filhos que ainda restaram,  cambaleavam o caixão e adentraram o cemitério, seguidos das pessoas chorosas e com velas que teimavam em ficar acesas na brisa cortante da tarde de junho.
A morte não devia ser surpresa pra quem sofreu e viveu tanto tempo. Mas, será a morte o verdadeiro prêmio depois de se viver uma vida de expiação e trabalho quase sem fim?
Cruzando por entre os túmulos antigos como é na entrada de qualquer cemitério, o cortejo se espremeu para caminhar pelas vielas acidentadas em que números de “perpétua” aumentavam e diminuíam sem critério nenhum. Os túmulos de tempos passados, todos discretos, grandes retângulos de concreto com imagens de santos e anjos de olhar sereno, datavam desse antes da fundação da cidade. Mas era engraçado que, como se fosse uma evolução, os mesmos túmulos se apresentavam de formas diferentes conforme a data do sepultamento de seus habitantes, havia correntes cercando alguns deles, já outros, ostentando um mármore negro com suas grades escuras e puxadores dourados. Ali haviam também as pequenas capelas em que famílias inteiras se encontravam pra ficar em silêncio , aguardando a visitas de seus herdeiros nem sempre interessados em perder seu tempo com a família falecida.  O vento gelado do inverno terminava de depenar as pequenas arvores que insistiam em dar um toque de vida ao lugar. Entre uma e outra curva as pessoas paravam para admirar as esculturas e fotos inexpressivas dos que ali estavam enterrados. Como podia um cemitério ser tão belo e tão cheio de tristeza ao mesmo tempo?

A certa altura, foi preciso passar com cuidado ao cruzar uma ruazinha de onde escorria uma enxurrada de parafina derretida, nela, logo acima, havia o tumulo de um garoto, há muito tempo falecido vitima de tuberculose, que ficou conhecido como milagreiro. Ali, dezenas de embalagens de iogurte, brinquedos, cartas de pedido e agradecimento, coroas de flores, pequenos presentes infantis e todo tipo de fotos cercavam de baixo a cima um pequeno tumulo coberto de minúsculos azulejos azul piscina. Na foto, o garoto rindo, de pé, se encostando em uma cadeira, vestido com roupas de época e segurando um chocalho. Ao redor, quase que uma centena de velas derretia e se tornavam uma coisa só ao ar em uma fumaça escura e ao chão em parafina que serpenteava pelos vãos do chão de concreto, deslizando até que ficasse dura demais.

Logo a frente, a capela do cemitério toda feita de vidro fumê, destoava do ambiente em que estava, rodeada de túmulos maçônicos com seus símbolos e fotos ovais de um lado, e do outro o famoso cruzeiro, onde qualquer vela acendida valia para qualquer alma e toda prece seria dividida igualmente entre os que dessa precisassem.

Enfim, caminhando reto até o muro que limitava o cemitério, eles encontraram o paredão onde as famílias que não tinhas condições enterravam seus entes queridos, as gavetas.

Mas, se em vida, não tiveram chance de ter seu próprio teto pra acolher os seus e viver em paz, em morte então com toda certeza teriam direito de um canto para descansar enfim se reunirem? Não.

Os lugares eram poucos e a prefeitura não se dava ao trabalho de aumentar a quantia de espaço ou reservar uma área maior. Enfim um cemitério iria aumentar porque querendo ou não as pessoas iriam continuar a morrer, mas o dinheiro devia ir para as maternidades, ou para o necrotério?
O cortejo se antecipou a caminhar para o cemitério, porque duas das irmãs ainda vivas da senhora falecida passaram mal e uma delas chegou a desmaiar. Os filhos aflitos que carregavam o caixão se aproximavam ainda cambaleando, guiando o cortejo para o paredão cedido pela administração pública. Qual não foi a surpresa, quando, por conta da antecipação o Sr. Coveiro ainda estava liberando o espaço para a falecida enfim entrar e descansar seus ossos fracos.

Por um instante, um momento, quase um pequeno segundo se ouviu um gemido agudo de mulher, quase que um lamento. A esposa do filho falecido, da agora falecida sogra. A viúva que ficou com uma filha única, órfã de pai há cinco anos trás por conta de um acidente. A mulher que estava vendo o Sr. Coveiro fazer o seu trabalho, indiferente ao cortejo que já estava a menos de três metros dele.
Assim, junto com uma rajada de vento úmido e frio , o choro da menina órfã se ouviu e os filhos que carregavam o caixão foram, um a um, caindo e si e percebendo que, a gaveta que o coveiro estava esvaziando era onde estava seu irmão. Eles então pararam todos, segurando nos braços já cansados a mãe falecida, enquanto o restante da família e amigos tapavam as bocas pra infeliz coincidência fúnebre.

O caixão que eles haviam carregado há alguns anos já estava no chão, e em cima dele a pequena coroa de flores cedida pela empresa do falecido, com seu nome escrito em uma faixa com letras cintilantes e uma foto de terno, resquício de um documento oficial qualquer. Na frente do caixão, que fora lacrado por conta da gravidade do acidente, o rosto do ocupante estava visível, agora não passava de ossos com uma pele negra, seca com os cabelos desgrenhados, os lábios recuados e os dentes a mostra.
Todo o cortejo parou, e as pessoas se alinharam aguardando o que iria acontecer.

Desconhecendo a situação, o coveiro continuou seu trabalho. Passou uma pequena vassoura dentro da gaveta, juntou os pedaços de concreto da tampa quebrada e os guardou dentro do seu carrinho de mão.
De todos daquele cortejo, apenas dois ou três não estiveram ali há cinco anos atrás enterrando o irmão falecido. As dores, as lembranças cinzas e o frio de junho pairavam sobre eles, com seus casacos velhos e seus rostos cansados. Já não bastava a vida ser tão cruel, ainda gostava de rir e deliciar com o sofrimento que acumulava. Podia uma ferida velha que cutucada, doer mais que uma ferida que acabava de ser aberta?

E a família aguardou, com a mãe morta suspensa e o caixão do irmão ao chão, para que até em morte eles não pudessem ter o descanso ao mesmo, mas sendo trocados um pelo outro.
Como tantas vezes a mãe abriu mão de comer para dar aos filhos, como tantas vezes não havia água para todos beberem, como tantas vezes eles revezaram o sono no único colchão que tinham.
Colocada a mãe na gaveta, os choros se misturavam entre os que eram por conta do sepultamento e os que eram por conta da lembrança do sepultamento antigo. Já não havia ninguém sereno entre eles.
O coveiro enfim colocou os tijolos e selou com concreto a entrada. Ela enfim estava descansando. E tinha um lugar só dela. Mesmo que esse lugar tenha sido cedido pelo filho.
A família nunca para de se relacionar.
Os irmãos pegaram o caixão puído, de madeira barata, se viraram  e tomaram a frente do cortejo.
O coveiro foi atualizado do que acontecia e ficou sem reação, apenas encostou em sua pá e observou o andamento.

O frio de junho não dava trégua, e os corações do cortejo ainda não se acalmaram. Os irmãos iriam levar os ossos de seu falecido para o necrotério. Sempre unidos. Sempre família. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

(sobre)vida


Leio sempre por aí a palavra sobrevida.  E nunca, repito, NUNCA é algo realmente positivo ou que traga um sentido real de algo que é muito bom.





Correndo os olhos pelos lugares onde ela aparece, a palavra sempre quer dizer algo básico : Algo que devia estar morto, porém por algum motivo continua a viver.

E o drama da sobrevida vai muito além das pessoas desenganadas pelos médicos ou dos que simplesmente continuam vivos por uso de remédios. A pior sobrevida é de quem não tem data para morrer.

Eu explico : A filosofia explica que nós vivemos um estado de negação constante. Do quê ? Da morte.
Porque a partir daquele dia em que você presenciou a primeira morte de um ente querido, ou de algum animal de estimação e se colocou a entender que essa vida tem um fim, você já sabia : a vida acaba, e, se acaba pra ele, acaba para mim.

Daí a negação. A gente mascara os sentimentos de medo, da chance de falecer a qualquer minuto e leva uma vida ordinária e sem princípios. Não que eu queira pessoas trancadas em casa, amedrontadas, refugiadas segundo a segundo do mundo de fora. Entretanto a gente deve lembrar do que nos espera, e antes de tudo, encarar isso.

Mas a gente tem que pesar, e cada um carrega uma balança diferente.

Não é que quem se encontra em sobrevida, saiba a exata hora de seu fim. Mas aí é que surge o fim da negação.

 Mas oras, a vida toda eu já sabia que a vida toda ia chegar ao fim. Mas agora a realidade me deu uma doença e jogou em minha cara a verdade que eu não queria saber: Eu tenho um prazo.

Então talvez seja hora, de viajar. De correr descalço pelo mundo, sem medo de se sujar em qualquer coisa.
Talvez seja hora tentar mudar de vida, e dar mais risos pras pessoas lembrarem de mim assim na minha despedida. Talvez seja hora de amar no primeiro olhar, talvez seja minha chance de odiar assim que eu quiser...Talvez seja só a hora de parar de me preocupar tanto. Olhar para meus filhos crescendo, para meus pais se cobrindo de rugas, para meus amigos que viajaram longe e não passam de boas memórias...

Mas a gente não pode esperar alguém de roupa branca nos alertar , que a vida não é infinita. Que não somos como Peter Pan voando sem envelhecer pelo mundo.

É fato que todos nós iremos. Talvez daqui a dois minutos, talvez daqui a duas décadas, talvez em um mês.

Então, olhem só, já estamos em sobrevida.
 Já temos um prazo.
 Já é hora de abraçar sem se importar com estereótipos.
 Hora de se cuidar, de cuidar dos outros. 

Sempre é hora de viver melhor. E que, se hoje for nosso último dia, talvez seja nossa última chance de fazer cada momento valer a pena.

Desejo uma ótima sobrevida a todos vocês.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O barulho dos gatos


O barulho dos gatos




Eu me lembro do dia em que escolhi esse apartamento para alugar. Era o único que estava livre, que tinha uma varanda. 

Sendo ele no terceiro andar, na minha cabeça, a varanda ia ser um lugar onde eu ia poder ler um ou outro livro, sentar no fim de tarde pra ver o sol, e me refugiar da vida, como se morar sozinho já não bastasse. 
Por fim, o espaço hoje, só serve pra comportar alguns cabos retorcidos que eu insisto em chamar de varal, acumular poeira trazida pelo vento e servir de playground pros gatos que insistem que a minha varanda é mais atrativa que as outras quatro do meu bloco.

Por vezes eu ouvia gritos deles em suas noites acordados e quando me levantava pra enxotá-los dali, não havia nada. Como fantasmas cruéis, eles sumiam ao meu menor movimento, me fazendo ir para a varanda de cueca, me obrigando a contemplar noites claras e de vento parado. As vezes eu achava graça. Noutras, era tomado de ódio e revolta quando caia em mim a minha impotência, enquanto os via descendo pelo muro, com uma agilidade fora do comum e ainda olhando para trás como que me dizendo : “não foi dessa vez meu querido”. 

É incrível como nunca se enganam. Nunca aparecem por lá quando estou silenciosamente remoendo a solidão que optei. Não tombam o lixo, não deixam rastro. Não sujam a varanda. Às vezes são como lembranças ruins, sabe? Aparecendo na calada da noite, me acordando, me fazendo lembrar que a vida não é perfeita o quanto eu desenho em minha mente. Me fazendo desacreditar no conto que eu mesmo conto para mim. 

Hoje eu não me chateio com o barulho dos gatos. Fiz planos para a varanda, e me demiti deles de forma preguiçosa. O barulho sinaliza minha desistência, minha falta de coragem. Os gatos são as pessoas que aproveitam as chances que você não pega. Deitando e rolando em uma varanda que até então você sempre achou que fosse sua, mas descobre de forma cruel, que a propriedade das coisas não está no achismo, mas sim na ação.

Nos últimos tempos recomecei a ler. Recomecei a escrever. Até voltei a ensaiar minhas musicas em tons barítonos. E não ouço mais o barulho dos gatos a noite. 

Parece um acordo silencioso. Um trato, que começou com uma chantagem, é verdade. 

Uma noite passada enquanto estava lá dentro envolvido em livro qualquer, ouvi gemidos na varanda. 
Saí devagar, sem esperança de encontrar a origem do som. Lá fora, o vento que anunciava o outono bateu em meu rosto, e então eu a vi.

Uma gata deitada no canto da varanda, me olhando com olhos de piedade.

 Ela não estava se desculpando, estava me perdoando.
 Não sei por que.

Nunca saberei.

Ao seu redor, estavam dois pequenos filhotes recém-nascidos, natimortos. Corpos magros, pelo escasso e olhos fechados. Era como se eu me visse ali. Deitado, desistindo de tudo, e fechando os olhos para o mundo.

Após alguns minutos, entre contrações e gemidos, com a minha ajuda o terceiro filhote nasceu. Branco como leite, e vivo. A gata cuidou dele, envolta nos panos que eu havia trazido, e ainda me olhando com olhos de perdão. Que coisa. Me lambendo, e deitando a cabeça devagar, como uma velha senhora cansada.
Hoje eu chamo ele de outono. E deixo a varanda entreaberta pra que ele possa estar em casa quando chego com meu amor, ou carregado de trabalho.

E ele vem até mim, e nós conversamos uma conversa silenciosa como a noite em que ele nasceu. Silenciosa como a morte da sua mãe naquela mesma noite. Uma gata sem nome, que visitava minha varanda de tempos em tempos, pra me fazer acordar para a vida.

Hoje, o barulho dos gatos não passa de um ronronar, como uma lembrança boa, de um tempo ruim, que acabei superando. 


Eu e Outono, conversando e seguindo em frente.